A idealização inconsciente de nós e dos outros

Observações iniciais:

 

Esta série é direcionada para quem deseja investir no seu autodescobrimento, ela descreve alguns dos principais obstáculos, predominantemente inconscientes, para a jornada de autotransformação.

 

 

O objetivo é a reflexão e questionamento da nossa forma de pensar, sentir e agir que acreditamos sermos livres para isso, mas na verdade somos prisioneiros inconscientes de pressupostos ou premissas profundamente  enraizadas, por não termos consciência disso criamos sem saber dificuldades e crises em várias áreas da vida.

 

Filosofias e tradições espirituais do mundo enfatizam a importância de investir no autoconhecimento, mas na prática poucas pessoas se comprometem profundamente consigo mesmas nessa jornada. Muitas vezes simplesmente porque não sabem que são prisioneiras de si mesmas.

 

 

Ter consciência das "Prisões Invisíveis" já é o primeiro passo para se libertar gradualmente ao longo da vida, através da exploração de nosso território inconsciente, o que mais cedo ou mais tarde levará a confirmação que somos muito mais do que achamos que somos!

 

Para baixar e imprimir o texto a seguir, clique aqui.

 

 

A idealização inconsciente de nós e dos outros

 

Para diversos autores, toda criança é doutrinada com conselhos sobre a importância de ser boa, santa, perfeita.   Quando não agia assim, era sempre punida de uma maneira ou de outra. Talvez a pior punição fosse quando os pais retiravam o seu afeto ou ficavam com raiva da criança. Não é à toa que:

 

“Ser mau" esteve sempre associado a castigo e infelicidade

“Ser bom" associado a prêmio e felicidade.

 

Daí, ser "bom e perfeito" tornou-se uma absoluta exigência, uma questão de "vida  ou morte". Todo individuo sempre soube que nunca foi tão bom e perfeito quanto o mundo esperava que fosse.  Esta verdade teve de ser ocultada, tornando-se um segredo, cheia de culpas. Assim começa, na infância, a construção da idealização inconsciente de nós mesmos.

 

A idealização inconsciente pode assumir muitas formas. Ela nem sempre dita padrões de falsa perfeição facilmente reconhecidos. Na verdade dita padrões altamente morais, tornando ainda mais difícil questionar a sua validade.

 

Um exemplo:

 

"Mas não está certo querer ser sempre decente, amoroso, compreensivo, nunca irritado, nunca ter falhas e tentar chegar à perfeição? Não é isto o que é esperado de nós?"

 

No exemplo acima as palavras “sempre e nunca” trazem a idealização embutida. Em uma auto avaliação sincera, todos nós sabemos que isso não pode ser verdade, mas sem ter consciência, impomos a nós mesmos ou aos outros essa idealização. A não aceitação dessa dualidade entre bom e mal ou perfeição/imperfeição cria muitos conflitos internos e externos.

 

A palavra aceitar, neste contexto, não é sinônimo de acomodação passiva a uma situação. É sinônimo de reconhecer as coisas como elas são agora verdadeiramente. Uma premissa em psicologia é que nada que não é reconhecido ou tornado consciente, pode ser transformado.

 

Existe um medo profundamente escondido no inconsciente que diz: 

 

“Meu mundo virá abaixo se não viver de acordo com os padrões idealizados”.

 

Com este pensamento inconsciente, o indivíduo não consegue abrir mão da tirania interna, e esta não permite que se perceba a impossibilidade de ser tão perfeito quanto às exigências idealizadas por nós e reforçadas pelo sistema educacional, pela família e sociedade em que vivemos.

 

Um dos artifícios mais comuns quando temos algum insucesso na vida é projetar a culpa pelo fracasso no mundo externo, nos outros, ou na vida. Muitas crises pessoais não precisariam existir se não fosse a tirania da  idealização inconsciente de nós mesmos.

 

O desejo genuíno de melhorar a si mesmo levaria à aceitação da personalidade como ela está verdadeiramente agora.  Dessa forma, qualquer descoberta acerca de onde se está em falta com relação aos seus ideais não nos levaria à depressão, ansiedade e culpa, mas pelo contrário, nos fortaleceria se não fosse o falso eu.

 

Um sentimento de derrota, frustração e compulsão, bem como culpa e vergonha, são as indicações mais evidentes de que a idealização de si mesmo  está ativada. Essa idealização  foi “construída inconscientemente” para sustentar a autoconfiança, a felicidade e o prazer supremo. Quanto mais forte a sua presença, tanto mais desvanece a genuína autoconfiança, felicidade e muitos outros atributos gratificantes, formando-se um círculo vicioso autoperpetuante, sintetizado na frase:

 

“Quanto menos satisfação mais forte a idealização de nós mesmos.”

 

Pierrakos afirma que os sentimentos do eu real funcionam em perfeição relativa àquilo que você é agora. Quanto mais investimos no eu idealizado mais afastados ficamos do eu real. E na exata proporção deste afastamento, enfraquecemos e empobrecemos a nós mesmos, por mais paradoxal que pareça.

 

Ao tentar responder sinceramente a questão: "Quem sou eu realmente?", nosso “centro de vida” responderá e a intuição começará a funcionar em sua plena capacidade relativa ao que você é agora. Gradualmente nos tornamos mais espontâneos, livres de todas as compulsões, confiando em nossos sentimentos porque eles trarão uma oportunidade de amadurecer e crescer, simplesmente porque aprendemos com os acertos e erros.

 

Os sentimentos se tornarão pouco a pouco, confiáveis tanto quanto o seu poder de raciocínio e o seu intelecto. Grande parte dos conflitos deixará de existir quando aceitarmos em nós mesmos a parte boa/harmoniosa e a parte má/desarmoniosa.

 

Algumas frases que procuram sintetizar esse conceito:

 

“Nenhum processo de crescimento e síntese da personalidade é possível até que a sombra (bem/mal) seja adequadamente confrontada.” Jung

 

“A suprema libertação consiste em transcender e incluir os pares de opostos (bem/mal)” Ken Wilber

 

 “O que não enfrentamos em nós, aparecerá como destino” Jung

 

O texto está focado em nossa idealização inconsciente. A idealização inconsciente do outro só pode diminuir na exata proporção que diminui a nossa. A frase a seguir sintetiza esta ideia:

 

"Quem olha para fora sonha; quem olha para dentro acorda” Jung

 

Todo individuo que já andou até certo ponto em sua jornada de autodescoberta pode confirmar a frase acima de forma vivencial não apenas teórica.

 

 

Considerações Finais:

 

O texto acima tenta descrever uma das prisões invisíveis de uma maneira abrangente. Esses conceitos têm muitas maneiras de se expressar no contexto individual. Até certo ponto podemos reconhecer e fazer mudanças sozinhos, mas outras vezes necessitamos de ajuda para ir mais fundo no reconhecimento de como estamos aprisionados e como nos libertarmos.

 

Alguns autores alertam para o abismo inconsciente entre o saber e o agir. Podemos saber muito, mental e emocionalmente, mas agimos muito pouco.

 

Quando tomamos consciência da profunda diferença entre “saber um caminho” e “percorrer esse caminho” nos aproximamos da possibilidade de acelerar nossa jornada de autodescobertas, abrindo-nos para o aprendizado com os acertos e erros.

 

Quando já caminhamos até certo ponto, podemos confirmar o que os grandes sábios sempre disseram:

 

“Somos os criadores de nossa vida exatamente como ela é agora! Através das nossas ações ou omissões, conscientes e principalmente inconscientes.”

 

Tendo mais clareza desse poder criador (harmonioso e desarmonioso) podemos mudar muita coisa em nossas vidas, se assim acreditarmos profundamente.

 

Autores de referência para esta série de textos:

Carl Gustav Jung, Eva Pierrakos, Ken Wilber, Debbie Ford, Stanislav Grof, Humberto Mariotti, Alexander Lowen, Vera Saldanha, Pierre Weil, entre outros.

 

 

 José Luís Morado

 

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